A relação entre o CBD, o cânhamo e a vida sexual tem despertado cada vez mais interesse. Nas redes sociais e na comunicação de alguns produtos, o CBD é por vezes apresentado como um afrodisíaco ou como uma forma de melhorar diretamente o desejo, a excitação ou o desempenho sexual.
A realidade científica, no entanto, é mais complexa.
Embora existam mecanismos biológicos que justificam o interesse dos investigadores e alguns estudos apresentem resultados promissores em áreas relacionadas com ansiedade e stress, não existe atualmente evidência clínica robusta que permita afirmar que o CBD melhora diretamente a função sexual ou que funciona como afrodisíaco.
Por isso, é importante distinguir aquilo que já foi estudado daquilo que continua por demonstrar.
O que é o CBD?
O CBD, ou canabidiol, é um dos principais canabinóides encontrados na planta Cannabis sativa L.. Ao contrário do THC, o CBD não produz os efeitos psicoativos característicos do THC.
O CBD interage com diferentes sistemas biológicos, incluindo o sistema endocanabinóide, e tem sido estudado em várias áreas relacionadas com o funcionamento do organismo.
No entanto, a existência de uma possível explicação biológica para determinado efeito não significa, por si só, que esse efeito esteja comprovado clinicamente.
O CBD é um afrodisíaco?
Atualmente, não existe evidência científica suficiente para classificar o CBD como afrodisíaco.
O desejo e a resposta sexual são influenciados por diversos fatores, incluindo stress, ansiedade, qualidade do sono, relações interpessoais, hormonas, medicamentos, saúde física e fatores psicológicos.
Por isso, não é cientificamente correto afirmar que o CBD aumenta diretamente a libido ou melhora o desempenho sexual.
É importante também ter cuidado com estudos que analisam cannabis em geral. A cannabis pode conter diferentes canabinóides, incluindo THC e CBD, pelo que os resultados obtidos com cannabis não podem ser automaticamente atribuídos ao CBD isoladamente.
O que sabemos sobre cannabis e função sexual?
Existe alguma investigação sobre a relação entre consumo de cannabis e função sexual, mas esta investigação não permite concluir que o CBD seja responsável por eventuais associações observadas.
Um estudo publicado em 2020 analisou a relação entre consumo de cannabis e função sexual feminina através do Female Sexual Function Index. Os investigadores encontraram uma associação entre maior frequência de consumo de cannabis e melhores pontuações em determinados indicadores de função sexual.
No entanto, este foi um estudo observacional. Isto significa que identificou uma associação, mas não demonstrou uma relação de causa e efeito.
Além disso, os resultados dizem respeito ao consumo de cannabis e não permitem concluir que o CBD, isoladamente, tenha melhorado a função sexual.
Esta distinção é fundamental quando se interpreta a investigação sobre o tema.
CBD, ansiedade e vida sexual
Uma das possíveis ligações entre CBD e sexualidade passa pela relação entre saúde mental e função sexual.
A ansiedade e o stress podem afetar o desejo sexual e a resposta sexual. Ansiedade de desempenho, preocupações persistentes e níveis elevados de stress podem interferir com a experiência sexual, independentemente do sexo.
É precisamente neste contexto que o CBD tem sido estudado.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou ensaios clínicos aleatorizados sobre CBD e perturbações de ansiedade. Os autores encontraram resultados que justificam investigação adicional, mas salientaram limitações importantes na literatura existente, incluindo amostras reduzidas, diferenças entre estudos e necessidade de ensaios clínicos maiores e mais rigorosos.
Assim, mesmo que futuras investigações demonstrem benefícios do CBD em determinados contextos relacionados com ansiedade, isso não significa automaticamente que o CBD melhore a função sexual.
O CBD pode ajudar a reduzir o stress?
O stress é outra área que tem despertado interesse na investigação sobre CBD.
Alguns estudos experimentais analisam se o canabidiol pode influenciar determinadas respostas fisiológicas e psicológicas associadas ao stress. Contudo, os resultados disponíveis ainda não permitem estabelecer uma conclusão definitiva sobre a utilização do CBD para gerir o stress quotidiano.
Um estudo clínico realizado em estudantes universitários avaliou o efeito de diferentes doses de CBD sobre a ansiedade associada a testes. O ensaio foi aleatorizado, duplamente cego e controlado por placebo, envolvendo 32 participantes.
Os investigadores não encontraram uma redução estatisticamente significativa da ansiedade de teste ou da ansiedade geral após a administração de CBD.
Este resultado é importante porque demonstra que nem todos os estudos apresentam resultados positivos e reforça a necessidade de interpretar a investigação de forma equilibrada.
E quanto ao desejo sexual?
Não existem atualmente ensaios clínicos suficientes que demonstrem que o CBD aumenta diretamente o desejo sexual.
O desejo sexual é um fenómeno complexo e multifatorial. Pode ser influenciado por fatores psicológicos, hormonais, relacionais e físicos.
Por isso, atribuir alterações na libido exclusivamente ao CBD seria uma conclusão que a evidência científica atual não permite retirar.
E a função sexual masculina?
A investigação específica sobre CBD e função sexual masculina também é limitada.
Problemas como a disfunção erétil podem ter várias causas, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes, alterações hormonais, determinados medicamentos e fatores psicológicos.
Até ao momento, não existe evidência clínica suficiente para afirmar que o CBD trata diretamente a disfunção erétil ou melhora de forma consistente a ereção.
Quando existem alterações persistentes na função sexual, é importante procurar avaliação médica, uma vez que estes sintomas podem estar relacionados com outras condições de saúde.
E nas mulheres?
A investigação sobre CBD e função sexual feminina permanece limitada.
Embora existam estudos sobre cannabis e sexualidade, estes não devem ser confundidos com estudos sobre CBD isolado.
O estudo anteriormente referido, por exemplo, encontrou uma associação entre frequência de consumo de cannabis e determinados indicadores de função sexual feminina. Contudo, os resultados não demonstram que o CBD seja responsável por essa associação.
São necessários estudos clínicos especificamente desenhados para avaliar o efeito do CBD sobre diferentes componentes da função sexual feminina antes de se poderem retirar conclusões sólidas.
E os produtos tópicos com CBD?
Os produtos tópicos contendo CBD também têm despertado interesse no contexto do autocuidado e da intimidade.
No entanto, é importante distinguir utilização cosmética de efeito terapêutico.
O facto de um produto conter CBD não significa que esteja demonstrado que aumenta a sensibilidade, melhora a excitação ou reduz a dor durante as relações sexuais.
Os efeitos de um produto tópico dependem da sua formulação, concentração, ingredientes e modo de utilização. Por isso, os resultados de um estudo sobre uma formulação específica não podem ser automaticamente aplicados a todos os produtos existentes no mercado.
Cânhamo e CBD são a mesma coisa?
Não.
O cânhamo é uma planta, enquanto o CBD é um dos compostos que pode ser obtido a partir de determinadas variedades de Cannabis sativa L.
Existem numerosos produtos de cânhamo que não são produtos de CBD. O óleo de sementes de cânhamo, por exemplo, é obtido a partir das sementes da planta e distingue-se dos extratos ricos em canabinóides.
Esta diferença é importante porque produtos derivados de diferentes partes da planta podem ter composições e utilizações completamente distintas.
O que podemos afirmar com segurança?
Com base na evidência disponível, podemos resumir o conhecimento atual da seguinte forma:
>Não está comprovado que o CBD seja um afrodisíaco.
>Não existem evidências clínicas robustas de que o CBD trate a disfunção erétil.
>A investigação específica sobre CBD e função sexual feminina ainda é limitada.
>Existem estudos sobre cannabis e função sexual, mas os seus resultados não podem ser diretamente atribuídos ao CBD.
>O CBD tem sido estudado no contexto da ansiedade, mas os resultados clínicos ainda não são suficientemente consistentes para estabelecer conclusões definitivas.
>O stress e a ansiedade podem influenciar a vida sexual, mas isso não significa que um eventual efeito do CBD sobre esses fatores resulte automaticamente numa melhoria da função sexual.
Uma abordagem responsável ao CBD e à sexualidade
A relação entre CBD e sexualidade deve ser encarada com expectativas realistas.
Uma vida sexual saudável depende de múltiplos fatores, incluindo saúde física e mental, descanso, relações interpessoais e bem-estar geral. O CBD pode continuar a ser objeto de investigação nestas áreas, mas não deve ser apresentado como uma solução comprovada para problemas sexuais.
Quando existem dificuldades persistentes relacionadas com desejo, excitação, dor, orgasmo ou ereção, a avaliação por um profissional de saúde é a abordagem mais adequada.
Conclusão
O interesse pelo CBD no contexto da sexualidade está a crescer, mas a investigação científica ainda não permite sustentar muitas das afirmações que circulam online.
Não existe atualmente evidência clínica robusta de que o CBD seja um afrodisíaco ou que melhore diretamente o desempenho sexual. Existem, contudo, linhas de investigação interessantes relacionadas com ansiedade, stress e outros fatores que podem influenciar a vida sexual.
Também existem estudos sobre cannabis e função sexual, mas é essencial não confundir os seus resultados com evidência específica sobre CBD.
À medida que forem realizados mais ensaios clínicos, será possível compreender melhor se o CBD poderá ter algum papel específico nesta área. Até lá, a melhor abordagem é distinguir claramente entre resultados preliminares, associações observacionais e benefícios clinicamente comprovados.